A Consolare, concessionária responsável pela gestão de sete cemitérios públicos na cidade de São Paulo, é a primeira a identificar oficialmente figuras conhecidas como milagreiros nos cemitérios sob sua administração – Consolação, Quarta Parada, Santana, Tremembé, Vila Mariana e Vila Formosa I e II. O reconhecimento é feito por meio da instalação de placas nos túmulos, com informações sobre a trajetória dessas pessoas até se tornarem símbolos de devoção popular e intercessores de milagres.
Ao todo, 9 milagreiros foram identificados, todos reverenciados há décadas por frequentadores que depositam fé em seus supostos feitos milagrosos. Velas, flores, cartas e orações são deixadas junto aos jazigos, num gesto de devoção que atravessa gerações.
“Reconhecer esses personagens é uma forma de valorizar a fé popular e reforçar o papel dos cemitérios como espaços de memória, cultura e espiritualidade”, destaca Claudio Elias, CEO da Consolare. “Essa iniciativa também promove o respeito à diversidade de manifestações religiosas e culturais presentes na cidade.”
Confira os milagreiros identificados em cada cemitério:
Vila Mariana
- Luigi Guglielmo – Religioso desde pequeno, teve visões espirituais e dizia conversar com Jesus. Antes de morrer de pneumonia, afirmou que intercederia por todos os que tivessem fé. Seu túmulo, sob uma capela, é hoje local de orações e pedidos.
Tremembé
- Silvinha – Jovem falecida aos 19 anos. Sua mãe manteve uma vigília diária no túmulo por anos, transformando o espaço em símbolo de amor incondicional. O local tornou-se um santuário visitado por fiéis e curiosos tocados pela história.
Santana
- Neusa Vidal (“Menina que chora”) – Menina doce que faleceu precocemente. Após sua morte, surgiram relatos de uma figura infantil vagando entre os túmulos e sons de choro. Sua sepultura é visitada por quem busca consolo para perdas precoces.
Vila Formosa
- Menina Débora – Criança assassinada em um crime brutal que comoveu São Paulo. Seu túmulo tornou-se ponto de peregrinação, onde visitantes deixam brinquedos, flores e pedidos de proteção para crianças. É considerada um símbolo de pureza e fé.
Quarta Parada
- Felisbina Muller – Pouco se sabe sobre sua vida, mas relatos indicam que seu corpo permaneceu incorrupto após a morte. É conhecida por conceder graças ligadas à saúde, à proteção de animais e à aprovação em vestibulares.
- Padre Adelino – Sacerdote português que atendia fiéis em uma charrete. Tinha devoção a Nossa Senhora do Bom Parto. Seu túmulo é procurado por pessoas que buscam ajuda em temas como maternidade, saúde e harmonia familiar.
Consolação
- Antoninho da Rocha Marmo – Menino profundamente religioso que oferecia seu sofrimento pela cura de outras crianças. Desejava a criação de um hospital, o que foi concretizado por sua família. Está em processo de beatificação pela Igreja Católica.
- Maria Judith – Mulher que teria sido vítima de violência doméstica. Após sua morte, começaram a ser atribuídas a ela graças, especialmente ligadas à vestibulares. Seu túmulo recebe inúmeras mensagens de agradecimento.
- Marquesa de Santos (Domitila de Castro) – Figura histórica do Brasil Imperial, conhecida por sua generosidade e obras sociais. Após sua morte, relatos de milagres atribuídos à sua intercessão fizeram de seu túmulo um local de peregrinação.
O tema também é abordado por Thiago de Souza, idealizador do projeto O Que Te Assombra? e pesquisador independente associado à Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC), no livro Milagreiros de Cemitério – Cidade de São Paulo. A obra reúne relatos sobre 25 personagens cultuados como milagreiros e um postulante a santo católico por martírio.
“Os milagreiros representam uma dimensão espiritual que resiste ao tempo e une diferentes gerações em torno da fé e da esperança”, afirma Thiago de Souza. “O gesto da Consolare de dar visibilidade a essas figuras é um passo importante no reconhecimento da cultura popular que pulsa dentro dos cemitérios.”
Vale lembrar que o termo “milagreiro” é o mais adequado nesse contexto, já que o reconhecimento como santo envolve um processo formal conduzido pela Igreja Católica.
Para ampliar o conhecimento sobre essas figuras, a Consolare, em parceria com Thiago, lança neste mês a série Memórias e Milagres nas redes sociais. O objetivo é apresentar as histórias por trás desses túmulos e refletir sobre sua importância para a cultura e a religiosidade popular.
Jazigo da milagreira Maria Judith no cemitério da Consolação | Consolare |
Além disso, os milagreiros presentes no Cemitério da Consolação podem ser conhecidos por meio de um passeio monitorado realizado todas as segundas-feiras, às 14h, com condução de Francivaldo Gomes, conhecido como Popó, que há mais de 20 anos atua como mediador cultural na unidade. Os ingressos gratuitos estão disponíveis no Sympla. Mensalmente também são realizados passeios noturnos na unidade, que contemplam essas histórias. A atividade é conduzida por Thiago de Souza, idealizador do projeto O Que Te Assombra?, e a historiadora Viviane Comunale, também é preciso realizar retirada gratuita de ingressos.
As iniciativas reforçam o compromisso da Consolare com a preservação da memória coletiva, o respeito à diversidade religiosa e a valorização dos cemitérios como espaços vivos de cultura, fé e história.








