O Museu do Ipiranga inaugura, em 25 de novembro, a exposição Debret em questão – olhares contemporâneos, que propõe um diálogo entre a iconografia do Brasil Império estabelecida pelo artista francês Jean-Baptiste Debret (1768–1848) e sua releitura, quase sempre crítica ou irônica, por parte de 20 artistas contemporâneos. A exposição é um desdobramento do livro Rever Debret (Editora 34, 2023), do pesquisador Jacques Leenhardt, que assina a curadoria ao lado de Gabriela Longman. A iniciativa integra a Temporada França–Brasil 2025, que celebra os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países e foi apresentada em versão mais sucinta na Maison de l’Amérique Latine, em Paris, entre abril e outubro deste ano. A entrada é gratuita.
Debret em questão se organiza em duas partes. A primeira apresenta 35 pranchas litográficas provenientes da obra Voyage pittoresque et historique au Brésil impressa em Paris entre 1834 e 1839. O artista recusa a representação idílica e, em vez disso, assume uma postura quase antropológica, que observa e descreve o cotidiano com minúcia e senso crítico. Na época, o conjunto foi rejeitado pelo governo brasileiro na época por retratar a violência da sociedade escravista no Rio de Janeiro, então capital do Império.
Em seguida, o visitante encontra as releituras contemporâneas, que retomam essas imagens como campo de disputa simbólica e de reescrita histórica. “Trabalhos de artistas como Gê Viana, Dalton Paula e Isabel Löfgren & Patricia Goùvea, por exemplo, desarmam a violência vivida para tornar possível a escrita de uma outra história, marcada agora pela autoestima e respeito”, observa Leenhardt.
Segundo o diretor do Museu Paulista da USP, Paulo Garcez Marins, há uma coerência muito grande entre as últimas exposições temporárias realizadas no Museu: “Elas buscam interpretar o passado com as perguntas do presente. Essa é, afinal, a característica do pensamento histórico, uma operação intelectual e cognitiva sobre o passado. É o que procuramos fazer ao abordar, por diferentes caminhos, as formas de violência e resistência que moldaram o Brasil”.
Obras inéditas e novos diálogos
Entre os destaques, estão duas obras inéditas. O artista Jaime Lauriano apresenta a instalação “Brasil através do espelho”, que aborda temas como etnocídio, apropriação cultural e democracia racial, além da série Justiça e Barbárie, composta por oito fotografias de violência encontradas nos meios de comunicação, em especial cenas de linchamento de homens negros que circulam na mídia. Ao usar o título de uma das obras de Debret, Lauriano tensiona o presente e o passado, questionando o que realmente mudou na dinâmica social brasileira.
Rosana Paulino, reconhecida por investigar as marcas deixadas pela escravidão e pelo racismo estrutural, também participa com a obra inédita “Paraíso Tropical”. Neste trabalho, a artista revisita a concepção histórica do Brasil como um paraíso idílico, imagem que atravessou séculos de representações, para revelar o outro lado dessa narrativa: um território marcado pelo extrativismo, cuja fauna e flora foram amplamente exploradas. A obra, um tríptico em técnica mista sobre papel, aproveita-se de motivos emprestados de Debret, aos quais associa palavras carregadas do imaginário exótico. Paulino cria com essa confrontação entre texto e imagens um choque poético que abre um caminho singular no conjunto das obras apresentadas.
A mostra conta também com obras de Anna Bella Geiger, Bruno Weilemann, Cássio Vasconcellos, Claudia Hersz, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Eustáquio Neves, Gê Viana, Heberth Sobral, Isabel Löfgren & Patricia Goùvea, Laercio Redondo, Livia Melzi, Sandra Gamarra, Tiago Gualberto, Tiago Sant’Ana, Val Souza e Valerio Ricci Montani em suportes como pintura, fotografia, vídeo, instalação e colagens digitais Uma sala é dedicada a um desfile sobre Debret concebido pela escola Acadêmicos do Salgueiro para o Carnaval de 1959, registrado em imagens pelas lentes do fotógrafo Marcel Gautherot (1910-1996).
A originalidade do trabalho de Debret
Debret chegou ao Brasil em 1816, integrando a Missão Artística Francesa como pintor da corte luso-portuguesa. Durante os 15 anos que viveu no país, além de atender encomendas governamentais que realizava no seu “ateliê da corte”, também criou imagens sobre a diversidade social e política que caracterizava o Rio de Janeiro. Para isso, concebeu o que se poderia chamar de um “ateliê de rua”: o artista permanecia durante longas sessões sentado na calçada, de onde registrava em cadernos de desenho o nascimento de uma nação, composta por portugueses, por povos indígenas, sistematicamente expulsos de suas terras, e africanos escravizados. Esse trabalho constitui a parte mais original de sua obra artística realizada no Brasil.
Suas aquarelas e gravuras combinavam uma descrição minuciosa e crítica, que não poupava detalhes de violência e o protagonismo do trabalho de escravizados africanos no Brasil, tradicionalmente invisibilizados nas representações artísticas do cotidiano. Tanto na França quanto no Brasil, ninguém queria enfrentar a evidência de que a economia dependia dos negros escravizados. As imagens diretas chocavam o público, que preferia representações exóticas da América, e não o peso do realismo documental.
Após um século de quase total esquecimento, a Viagem pitoresca e histórica ao Brasil foi traduzida pelo crítico Sérgio Milliet e publicada no Rio de Janeiro em 1940.
Nas décadas seguintes, as imagens de Debret tornaram-se uma das principais fontes de referência visual sobre o período imperial. Suas obras foram reproduzidas nos livros didáticos lidos por diferentes gerações de brasileiros. Espalharam-se, também por diferentes publicações, mídias e inúmeros objetos do cotidiano, como camisetas, calendários, objetos de cozinha, até a abertura da novela A Escrava Isaura, (TV Globo, 1976), adquirindo uma existência sem qualquer relação com o contexto e as condições em que foram produzidas.
“Com a descontextualização das imagens em relação ao texto original de Debret, as representações do artista passaram a ser reproduzidas sem suas críticas, assumindo uma função consagradora e nostálgica dos tempos da escravidão, reflexo de uma sociedade que não deixou de ser racista e que ainda cultiva a violência”, afirma Marins.
No início do século 21 e com o bicentenário da independência em 2022, os debates sobre brasilidade e identidade nacional tornaram a ganhar força, agora com uma camada adicional. Uma nova geração de artistas, muitos de ascendência africana e indígena ressignificaram essa iconografia, que passou a ser revista, tanto por novas pinturas e gravuras, como por meio da internet e de novos meios de circulação massiva de imagens.
Essas apropriações contemporâneas, frequentemente críticas e irônicas, revelam uma nova força na vida social das imagens e encarnam uma vontade coletiva de imaginar um futuro emancipado de um passado doloroso. Nelas percebe-se a alegria de questionar a escrita oficial da história e de abrir uma perspectiva crítica e original sobre a consciência de si e dos grupos historicamente marginalizados na trajetória social e política brasileira.
A exposição tem entrada gratuita e está instalada no salão de exposições temporárias, um espaço moderno, acessível e climatizado, com 900m2, localizado no piso jardim.
Acesso para todos os públicos
A acessibilidade é parte estruturante do processo curatorial das exposições do Museu do Ipiranga. A equipe do Educativo desenvolve uma série de recursos que não apenas garantem o acesso, mas ampliam a experiência sensorial e interpretativa de todos os visitantes, com e sem deficiência.
Em Debret em questão, o público encontrará recursos multissensoriais de toque, como dioramas — reproduções tridimensionais de uma obra —, mesas com placas visutáteis e textos em braille e alto-relevo. Legendas, Libras e audiodescrição também estão presentes e acompanham as instalações de vídeo.
Um dos destaques é a caixa de som que permite sentir a vibração do samba-enredo da Salgueiro, parte sonora de uma das salas dedicadas ao fotógrafo Marcel Gautherot.








