Brasil enfrenta desafios crescentes em relação ao hábito da leitura, especialmente com o avanço das redes sociais e atividades no mundo digital. Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), apenas 47% dos brasileiros são considerados leitores, uma queda em relação aos 52% registrados na edição anterior.
Diante desse cenário que a ONG PAC (Projeto Amigos da Comunidade) – que há mais de 23 anos trabalha com crianças, jovens, adultos e idosos em situação considerada de ‘extrema vulnerabilidade social’ nas regiões de Pirituba e Jaraguá – criou o projeto ‘Biblioteca do Zeca’, como um espaço de acesso à leitura e educação para crianças e adolescentes da periferia de Pirituba, em São Paulo.
Integrada às ações da ONG, a Biblioteca do Zeca funciona como um polo de democratização do conhecimento. Com o intuito de fomentar o hábito da leitura e atuar como suporte pedagógico para reduzir a defasagem escolar na comunidade.
Com funcionamento de segunda a sexta, das 9h às 16h30, a biblioteca atende tanto alunos das oficinas quanto os moradores da região. Em média, 120 crianças circulam pelo espaço diariamente, majoritariamente entre 6 e 14 anos, além de cerca de 10 atendimentos semanais voltados a adultos da comunidade.
O projeto é inspirado no conceito de “leitura de mundo”, em que a biblioteca é utilizada como ferramenta para que crianças e adolescentes compreendam sua realidade e desenvolvam senso crítico. O acervo reúne temas como cultura, educação e cidadania, poesia e clássicos da literatura, filosofia, história, aventuras, saúde e espiritualidade — com predominância de obras infantojuvenis e infantis, e é organizado com o apoio do aplicativo Skoob, facilitando a troca de livros entre a comunidade. Além disso, o espaço conta com uma seção dedicada a obras sobre culturas africana e indígena, promovendo identidade e valorização da ancestralidade.
Além de ser um espaço de leitura, a Biblioteca do Zeca também funciona como um ambiente de convivência e troca com a comunidade. Entre as iniciativas desenvolvidas no local tem a “Biblioteca Zeca em Ação” vinculado à oficina de reforço escolar EDUPAC, que integra atividades educativas, mediação de leitura e a integração com linguagens como teatro, artes visuais por meio de temas da cultura brasileira e dos povos originários, contribuindo para o desenvolvimento do vocabulário, da consciência histórica e do aprendizado escolar.
“O acesso à leitura é um direito fundamental e um ponto de partida para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. Na Biblioteca do Zeca, trabalhamos para que esse acesso aconteça de forma qualificada, conectando educação, cultura e pertencimento. Especialmente em um contexto de cada vez menos incentivo à leitura, é preciso não só disponibilizar livros, mas criar um ambiente que estimule, que seja divertido e se conecte com a realidade deles”, afirma Rosane Chene, empreendedora social e diretora da ONG PAC.
Para Ysis Gabrielle, de 9 anos, que participa da ONG no projeto de balé com foco em bailarinos negros, o Balé Ayô. Criada pela avó após a perda da mãe, ela encontrou na leitura por meio da Biblioteca Zeca uma forma de projetar possibilidades para o futuro.
“Ler é uma forma de ver coisas que a gente nunca viu antes. Eu gosto muito de estar aqui, especialmente porque os livros me permitem viajar sem sair do lugar, como aconteceu com o último livro que li, ‘Histórias da África’. É um espaço onde me sinto muito bem. Se você ainda não conhece a nossa biblioteca, venha visitar! Tem sempre um livro novo esperando por você”, conta Ysis.









