Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!
Início » Monteiro Lobato: educadores explicam a importância da obra do autor

Monteiro Lobato: educadores explicam a importância da obra do autor

Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!

Monteiro Lobato é considerado um dos pioneiros da literatura infantil no Brasil. O escritor, que completaria 144 anos em 2026 se estivesse vivo, ganhou projeção nacional ao criar o universo do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, série de livros que reúne personagens marcantes como Emília, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Nastácia e o Visconde de Sabugosa. As histórias combinam fantasia, humor e referências ao folclore brasileiro, misturando aventura, ciência, mitologia e elementos do cotidiano nacional.

Para Rayssa Rodrigues, professora de produção textual e literatura na Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), o legado de Monteiro Lobato foi fundamental para que a literatura infantil brasileira se afirmasse como um espaço de expressão cultural. “Monteiro Lobato foi um verdadeiro arquiteto do imaginário infantil brasileiro, cuja obra contribuiu de maneira significativa para que a literatura infantojuvenil no país ganhasse voz e identidade própria, deixando de ser apenas uma reprodução da literatura estrangeira e abrindo caminhos para personagens que são o rosto do Brasil. No Sítio do Picapau Amarelo, por exemplo, Pedrinho e Narizinho vivem no sítio da avó, exploram a natureza, sobem em árvores para apanhar jabuticabas e inventam brincadeiras com o que têm em mãos”, opina.
 

Segundo Rayssa, o contato com a obra do autor, ainda hoje presente em práticas escolares, não se limita ao incentivo à leitura, mas amplia o repertório cultural dos alunos, fortalecendo a relação deles com a literatura brasileira. “O espaço do Sítio também se torna um lugar de aprendizado, em que as crianças entram em contato com mitologias, lendas e outros elementos das raízes brasileiras. Com isso, o autor mostrou que a literatura para crianças podia ser inteligente, divertida e, ao mesmo tempo, carregar referências da nossa cultura. Quando o aluno entra em contato com isso, ele não está lendo somente uma narrativa, mas acessando um conjunto de referências que ajuda a formar seu olhar como leitor”, comenta. Para a professora, essa circulação contínua nas escolas é fundamental para manter a obra viva entre as novas gerações.
 

SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO
 

A série de livros do Sítio do Pica-Pau Amarelo é considerada a obra mais conhecida do escritor e um marco na consolidação da literatura infantil brasileira. Publicadas a partir da década de 1920 e adaptadas para a televisão nas décadas seguintes, as histórias se passam em um sítio fictício onde convivem personagens como Emília, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Nastácia e o Visconde de Sabugosa.
 

Nesse universo, Lobato combina fantasia, humor e elementos do cotidiano brasileiro, criando narrativas que dialogam diretamente com a curiosidade infantil e estimulam a imaginação dos leitores. Ao longo das histórias, o autor também incorporou figuras do folclore nacional, como Saci, Cuca e Curupira, aproximando as crianças de tradições culturais do país por meio da literatura.
 

“Essa mistura de fantasia com conteúdos de história, ciência e mitologia transformou o sítio em um espaço de aprendizado, onde os personagens frequentemente discutem temas diversos sob a orientação de Dona Benta ou a irreverência da boneca Emília”, afirma Lino Gonzaga de Oliveira, do Brazilian International School – BIS, de São Paulo/SP.
 

Na opinião do docente, a força do Sítio do Pica-Pau Amarelo está justamente na qualidade literária e na capacidade de dialogar com diferentes áreas do conhecimento, motivo que explica por que as histórias continuam presentes em escolas e projetos de leitura décadas após sua publicação.
 

“Lobato conseguiu criar uma obra que diverte, mas também provoca reflexão e curiosidade intelectual. Os livros apresentam linguagem acessível, personagens marcantes e uma narrativa que estimula a criança a pensar, imaginar e fazer perguntas sobre o mundo”, completa Gonzaga.
 

OBRA REVISTA À LUZ DA ATUALIDADE
 

A obra de Monteiro Lobato também vem sendo analisada à luz do contexto histórico em que foi escrita. Filho de um fazendeiro do interior paulista, o autor nasceu sobre o regime escravocrata e presenciou, quando criança, a abolição da escravatura no Brasil. Esse ambiente social e cultural marcou a formação do escritor e ajuda a esclarecer o motivo de certos trechos de seus livros refletirem visões e estereótipos comuns na sociedade brasileira do início do século XX, que hoje são alvo de debate entre educadores e pesquisadores.
 

No universo do Sítio do Pica-Pau Amarelo, por exemplo, personagens como Tia Nastácia e Dona Benta frequentemente representam papéis sociais bastante definidos: enquanto Dona Benta aparece como a figura culta que conduz explicações e reflexões, Tia Nastácia é retratada principalmente em atividades domésticas e culinárias — embora também seja apresentada como guardiã de saberes populares e do folclore. Em outros momentos, a linguagem utilizada por personagens como Emília reproduz termos e estereótipos que eram comuns na época, mas que hoje são considerados inadequados e têm sido revisitados e ressignificados.
 

Para Thiago Silverio Barbosa, professor de língua portuguesa da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri (SP), reconhecer esse contexto histórico é fundamental para trabalhar a obra em sala de aula de maneira responsável. Essa abordagem permite que as crianças tenham contato com um clássico da literatura infantil brasileira ao mesmo tempo em que desenvolvem consciência histórica e pensamento crítico.
 

“Monteiro Lobato escreveu em um período em que o Brasil ainda carregava muitas marcas da escravidão e das hierarquias sociais herdadas desse sistema. Ler esses livros hoje exige mediação: é importante valorizar a criatividade, o humor e a riqueza cultural do Sítio, mas também discutir com as crianças e jovens como certos estereótipos presentes nas histórias refletem a mentalidade de uma época”, opina Thiago Silverio.
 

JECA TATU E A CRÍTICA SOCIAL
 

Outra figura marcante criada por Monteiro Lobato é o caipira Jeca Tatu, apresentado inicialmente no artigo “Velha Praga”, publicado em 1914 no jornal O Estado de S. Paulo, e posteriormente incorporado ao livro Urupês. Imortalizado no cinema pelo ator Amácio Mazzaropi, o personagem do Jeca foi concebido como uma representação crítica, para o autor, do homem do campo brasileiro do início do século XX: um trabalhador pobre, com pouca escolaridade e vivendo em condições precárias no interior do país.
 

Lobato cria e apresenta o personagem determinado por fatores genéticos, raciais e sociais, sendo que a miscigenação e as condições socioeconômicas influenciam fortemente os seus comportamentos e modos de vida. “Embora essa caracterização e estigmatização do homem do campo do autor seja entendida atualmente como uma postura de preconceito, sabemos que, ao longo do tempo, Lobato evoluiu seu pensamento nos apresentando uma análise mais complexa e multifacetada acerca do atraso e da estagnação do Brasil rural, especialmente por meio da figura do Jeca”, afirma Paula Porchat de Assis Machado, professora de língua portuguesa do colégio Progresso Bilíngue de Campinas (SP) e mestra em Teoria e História Literária com pesquisas acerca da vida e obra de Monteiro Lobato.
 

Portanto, com o passar dos anos, o próprio autor revisou sua interpretação do personagem: se nos primeiros textos o Jeca aparece descrito como apático e indolente, “um sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas”, relembra Paula Porchat; posteriormente, Lobato passou a defender que o problema não era o indivíduo, mas as condições sociais e sanitárias em que vivia a população rural. Logo, passou a questionar visões idealizadas do caboclo presentes em parte da literatura brasileira e a chamar a atenção para o abandono das regiões rurais. “O Jeca Tatu, como um personagem literário, passou a funcionar como uma espécie de diagnóstico social do Brasil rural daquele período. Ao mesmo tempo em que apresenta estereótipos da época, também denuncia o abandono em que viviam milhões de brasileiros no campo”, ressalta.
 

Na década de 1920, a partir do seu conhecimento e envolvimento em campanhas sanitaristas, o escritor passou a apontar fatores como doenças, falta de saneamento e ausência de políticas públicas como causas do atraso social observado no interior do país. “Por essa razão, o personagem ultrapassou o campo literário e ganhou usos educativos, no qual sua narrativa buscou indicar a solução e o melhoramento para o Brasil rural, representado por Jeca Tatu já na versão de ‘Jeca Tatuzinho’, um homem do campo, brasileiro e interiorano que, sob efeito do progresso assimilado pelo conhecimento, pelo avanço técnico-científico, pela ciência e pela mudança de mentalidade, se mostra mais desenvolvido e moderno.” explica Paula. Jeca tatuzinho passou a ser utilizado em campanhas de saúde e higiene voltadas à população rural, com o objetivo de conscientizar sobre prevenção de doenças e melhoria das condições sanitárias.

Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!
PARTICIPE DO REDE AGORASP
PARTICIPE DO REDE AGORASP
Recebendo notícias, participando, enviando conteúdos com fotos e vídeos.