Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!
Início » Pará faz história e cria política própria para educação indígena

Pará faz história e cria política própria para educação indígena

Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!

O Pará passa a contar com uma política própria para educação escolar indígena após a sanção da nova legislação que estabelece, pela primeira vez no estado, diretrizes específicas para o ensino voltado aos povos originários. O modelo consolida bases para uma educação diferenciada, multilíngue e conectada à valorização dos saberes tradicionais indígenas. A lei foi sancionada nesta segunda-feira (11), em Belém, pela governadora Hana Ghassan.

A medida tem como base o Projeto de Lei nº 617/2025, encaminhado pelo Poder Executivo e aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) em abril deste ano. A proposta foi construída a partir de um amplo processo de escuta e participação social, envolvendo lideranças, professores e representantes indígenas das oito etnorregiões paraenses.

Mais do que estabelecer novas diretrizes educacionais, a lei reorganiza a política pública voltada aos povos indígenas no estado ao criar mecanismos permanentes de participação, governança e formação específica. O texto também reforça garantias já previstas em acordos internacionais e amplia a segurança jurídica para implementação da educação indígena nos territórios.

Durante a cerimônia, Hana Ghassan destacou o caráter coletivo da construção da proposta. “A educação escolar indígena representa um passo firme no reconhecimento dos direitos, da cultura, das línguas, dos saberes tradicionais e da autonomia dos povos originários. Essa lei, a qual acompanhei desde o início também, sei que nasce do diálogo, da escuta e da construção coletiva de todos que participaram, para que hoje a gente possa estar aqui, nesse dia histórico”, afirmou.

Construção coletiva

Desde setembro de 2025, o projeto percorreu um processo de Consultas Livres, Prévias e Informadas (CLPIs) realizadas nas oito etnorregiões do Pará. A construção envolveu lideranças indígenas, professores, organizações representativas e instituições públicas como Seduc, Uepa, Fepipa e Procuradoria-Geral do Estado.

O modelo participativo permitiu que a proposta incorporasse especificidades linguísticas, culturais e territoriais dos mais de 70 povos indígenas presentes no estado. A secretária interina da Sepi, Roseli Cavalcante, ressaltou a dimensão coletiva da iniciativa. “Essa política nasce da escuta, do diálogo e da participação efetiva dos povos indígenas. A sanção representa um passo decisivo para transformar essa construção coletiva em ações concretas, garantindo uma educação que valoriza os saberes tradicionais e fortalece as comunidades”, destacou.

Ensino próprio

A nova lei institui o Subsistema Estadual de Educação Escolar Indígena, cria o Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena e estabelece regras específicas para os profissionais que atuam nas comunidades, reconhecendo as particularidades do ensino nos territórios indígenas.

Entre os principais pontos estão a garantia da educação intercultural e multilíngue, com ensino em língua materna indígena e em língua portuguesa, além da inclusão dos saberes tradicionais no currículo escolar. O texto também assegura o ensino presencial como base da educação nas aldeias, restringindo o ensino remoto a situações excepcionais e mediante consulta prévia às comunidades.

Direitos ampliados

Durante a tramitação na Alepa, o projeto recebeu emendas que reforçaram a participação indígena nos espaços de governança e ampliaram garantias ligadas à Consulta Prévia, Livre e Informada, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A legislação também preserva direitos já assegurados em normas anteriores e cria bases mais sólidas para implementação da política pública, reduzindo inseguranças jurídicas e fortalecendo a autonomia das comunidades indígenas na condução de seus processos educacionais.

Novos caminhos

A lei prevê ainda ações estruturantes para fortalecer a educação indígena no Pará, como concursos públicos específicos para professores indígenas, fortalecimento do Sistema Modular de Ensino Indígena (Somei) e ampliação de políticas educacionais adaptadas às realidades locais.

O secretário de Educação, Ricardo Sefer, afirmou que a regulamentação inaugura uma nova etapa para a educação pública no estado. “Pela primeira vez, a educação pública do Pará passa a contar com uma lei construída com atenção e respeito às especificidades da educação indígena. É um marco importante para fortalecer uma educação mais inclusiva, humana e conectada à realidade dos povos tradicionais. Nosso objetivo é garantir que essa política chegue a cada estudante indígena, valorizando a cultura, a identidade e a aprendizagem dentro das aldeias”, afirmou.

Vozes indígenas

Entre lideranças e educadores indígenas, a sanção foi recebida como uma conquista histórica construída dentro dos próprios territórios. Smaick Tembé, da Terra Indígena Alto Rio Guamá, afirmou que a nova legislação representa mais reconhecimento e segurança para os profissionais da área. “É uma conquista muito importante para os povos indígenas e para a valorização de uma educação específica e diferenciada, de acordo com a nossa realidade”, disse.

Giandria Kabamunduruku, da aldeia Katon, em Jacareacanga, destacou o simbolismo da aprovação. “Essa é uma luta antiga dos povos indígenas, e hoje temos uma lei específica para amparar a nossa educação escolar indígena. É uma conquista histórica para todos nós, e agora seguimos trabalhando para colocar tudo isso em prática”, afirmou.

A cofundadora da Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa), Concita Sompré, ressaltou o ineditismo da iniciativa. “Ninguém teve a coragem de encaminhar essa lei pra Alepa. Nenhum governo fez isso”.

Já a professora Mila Munduruku destacou o protagonismo indígena na formulação da política. “Há muitos anos viemos pautando essa política para a educação escolar indígena, e hoje nasce a nossa lei, construída por nós, em nossos territórios, com as nossas demandas. É claro que isso não para aqui. Esse é o início de um processo que vai continuar, e nós o construímos, na base. E hoje temos uma lei que contempla nossas demandas e anseios. Para nós, é um orgulho trazer esses saberes tradicionais, de nossos sábios, para nossas escolas e junto às nossas crianças”, comemorou.

Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!
PARTICIPE DO REDE AGORASP
PARTICIPE DO REDE AGORASP
Recebendo notícias, participando, enviando conteúdos com fotos e vídeos.