Da população adulta, com 16 anos ou mais, 60% afirmam que já participaram de ações solidárias. Os dados são da edição 2026 da Pesquisa Voluntariado no Brasil, realizada pelo Datafolha, e mostram que três em cada cinco brasileiros já se envolveram em algum tipo de trabalho voluntário. Essa mobilização também chega ao ambiente educacional, com escolas criando oportunidades para que os estudantes participem de iniciativas sociais e compreendam, na prática, os desafios enfrentados por diferentes grupos da sociedade. O tema ganha ainda mais destaque no dia 28 de agosto, quando é celebrado o Dia Nacional do Voluntariado.
É nesse contexto que a Escola Gracinha, na zona sul de São Paulo, desenvolve um projeto no Centro de Acolhida Especial (CAE) Mulheres Brigadeiro, situado na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, número 1645, no bairro da Bela Vista, aproximando os conteúdos trabalhados em sala de aula de uma realidade concreta. “O objetivo é de que os estudantes deixem de ocupar apenas o lugar de quem recebe e passem a perceber que também podem contribuir, compartilhar conhecimentos e participar de uma ação capaz de transformar a realidade ao seu redor”, afirma o professor de Projeto de Vida e orientador Paulo Edison, coordenador da iniciativa.
O espaço acolhe mulheres em situação de rua, vulnerabilidade ou violência, muitas vezes acompanhadas de seus filhos, e é gerenciado pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. A proposta combina duas metodologias ativas, a Aprendizagem Baseada em Serviço, que relaciona o conteúdo à prestação de serviços comunitários, e a Aprendizagem Baseada em Projetos, que estimula os alunos a buscar soluções para situações reais.
O trabalho é realizado em parceria com a Organização das Famílias do Gracinha (OFAG), com encontros quinzenais às sextas-feiras, ao longo do semestre. Os estudantes saem da escola às 14h e permanecem na instituição das 14h30 às 15h30, com retorno previsto para as 16h. Além do encontro realizado em agosto, estão previstas atividades nos dias 4 e 18 de setembro, 2, 16 e 30 de outubro e 13 e 27 de novembro. Para Edison, a experiência também amplia a formação dos jovens para além dos conteúdos curriculares. “O contato com diferentes realidades permite que eles desenvolvam empatia, responsabilidade e cidadania, entendendo que pequenas atitudes podem contribuir para mudanças significativas na comunidade”, comenta.
Diferentes ações
Já na Escola Lourenço Castanho, também na zona sul de São Paulo, esse engajamento reúne diferentes frentes, impactando milhares de pessoas, por meio da Associação dos Pais da Escola Lourenço Castanho (APLOC), criada em 2010. Entre as ações está a campanha de arrecadação e separação de tampinhas recicláveis, que acompanha o percurso do material, da coleta à destinação, mostrando o que ele pode gerar após a reciclagem. “A ideia é criar um ecossistema de aprendizado, para que as pessoas entendam de onde vem essa tampinha, para onde ela vai, no que ela se transforma e o que pode ajudar a construir”, afirma Cassiane Zwaretch Haddad, uma das diretoras da APLOC.
Outra iniciativa começou com a ideia de estudantes de arrecadar livros para uma Associação Beneficente localizada em Capão Redondo, em São Paulo. A campanha foi incorporada pela APLOC e resultou na doação de mais de 5 mil exemplares. Voluntários e profissionais responsáveis pela biblioteca também participaram da organização do acervo. Depois, com recursos destinados às ações sociais, a associação ajudou a revitalizar a unidade, com intervenções em sua estrutura e equipamentos. “Foi um grande movimento, porque uma ideia que partiu dos próprios alunos acabou envolvendo diferentes pessoas e gerando uma transformação que foi muito além da doação dos livros”, destaca Cassiane.
O trabalho também chegou a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na Vila Nova Conceição. A APLOC participou da articulação pela revitalização do espaço, reunindo representantes da Secretaria de Saúde, conselheiros da unidade, subprefeitura e outras lideranças para destravar uma reforma que estava paralisada. Somadas, as frentes desenvolvidas pela associação alcançaram diferentes públicos e comunidades, ampliando o efeito das iniciativas para além da escola.
Para Cassiane, a participação voluntária também passa pelo compartilhamento de conhecimentos e pela criação de condições para que mais pessoas tenham acesso a oportunidades. “Eu acredito muito no voluntariado e em devolver para a sociedade um pouco do nosso conhecimento. Acredito na meritocracia, mas, para isso, as pessoas precisam ter oportunidades. Muitas querem estudar, crescer e sair da situação em que estão, mas, às vezes, não têm recursos. Se cada um fizer um pouco e fizer a sua parte, conseguimos impactar muitas vidas”, afirma.
Na APLOC, essa visão também orienta a relação com os filhos e o próprio papel da comunidade escolar. “Queremos que nossos filhos tenham acesso a essa humanização, sejam pessoas melhores, consigam furar a bolha e acreditem em um futuro melhor, no qual cada um possa fazer a sua parte. É uma forma de ensinar cidadania e de perguntar: o que eu estou fazendo? O que eu posso fazer para a sociedade ser um pouco melhor?”, finaliza.









