O levantamento foi realizado em 14 localidades de 10 Estados brasileiros, abrangendo mais de 1.350 famílias. A pesquisa incluiu um questionário aplicado a 65 profissionais da Aldeias Infantis SOS, oito grupos focais com 44 cuidadores, sendo 42 mulheres e dois homens, e depoimentos de profissionais de Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), de Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), Conselhos Tutelares, Ministério Público e Juizado da Infância e da Juventude. O resultado é um retrato aprofundado dos desafios enfrentados por famílias em situação de vulnerabilidade — sobretudo mulheres — e das alternativas possíveis para prevenir separações por ordem da Justiça.
O estudo dá continuidade ao relatório “Vozes (In)escutadas e Rompimento de Vínculos”, apresentado pela Organização em 2023, e reforça a urgência de investir em políticas públicas voltadas à convivência familiar e comunitária. Segundo a publicação, muitas rupturas entre crianças e seus responsáveis ocorrem por negligência não intencional, isto é, quando há ausência de suporte adequado às famílias frente a contextos extremos de pobreza, violência ou exclusão.
Entre os principais destaques da nova pesquisa está o reconhecimento da importância da escuta sensível, do apoio psicológico e do fortalecimento emocional dos cuidadores, além da presença ativa de equipes técnicas de confiança. Em muitos relatos, famílias atendidas descreveram os profissionais da Aldeias Infantis SOS como pontos de apoio fundamentais, não apenas para receber benefícios materiais, mas para se sentirem vistas, acolhidas e acompanhadas de forma contínua.
O documento também apresenta propostas estratégicas concretas para o Poder Público e a sociedade civil, como a necessidade de financiamento contínuo para ações de fortalecimento familiar, melhor articulação entre serviços da rede de proteção (assistência, saúde, educação e justiça), garantia de acesso à educação infantil e reconhecimento da diversidade de arranjos familiares.
Espaço de acolhimento da Aldeias Infantis SOS em Poá, na Grande São Paulo (Crédito: Divulgação) |
Alinhado à Política Nacional de Cuidados, aprovada em 2024 pelo Governo Federal, e às diretrizes da ONU sobre cuidados alternativos, o estudo reforça, sobretudo, que proteger a infância começa com o cuidado às famílias. Além disso, o tema dialoga diretamente com a atualização do Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, que está em fase de revisão e tem previsão de votação final em outubro, e prevê um eixo dedicado à Proteção, no qual se inserem serviços e políticas que atuam para garantir o fortalecimento dos vínculos familiares.
“Para a Aldeias Infantis SOS, garantir que nenhuma criança cresça sozinha é um compromisso coletivo que exige a corresponsabilidade de todos, isto é, Estado, sociedade e comunidade. E, desde já, devemos direcionar nossos esforços no sentido da prevenção, para evitar que mais meninas e meninos sejam afastados de suas famílias de origem por intervenção judicial, uma ação limite para o melhor interesse da criança e do adolescente”, finaliza Michéle.








