Durante décadas, a formação escolar esteve concentrada em disciplinas tradicionais, como Língua Portuguesa, Matemática, História e Ciências. Com a rápida transformação tecnológica, as mudanças nas relações sociais e as novas exigências do mercado de trabalho, muitas escolas brasileiras têm ampliado seus currículos com disciplinas voltadas ao desenvolvimento de competências que dificilmente eram ensinadas há alguns anos.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que orienta os currículos de todas as escolas brasileiras, estabelece as aprendizagens essenciais que devem ser desenvolvidas ao longo da Educação Básica. Além dos componentes curriculares obrigatórios, a BNCC também prioriza o desenvolvimento de competências gerais, como pensamento crítico, cultura digital, comunicação, argumentação, responsabilidade, cidadania, repertório cultural e autoconhecimento.
Embora essas competências devam ser trabalhadas por todas as instituições de ensino, a forma de desenvolvê-las é flexível, permitindo que as escolas criem disciplinas, projetos e programas próprios para aprofundar temas alinhados às demandas da sociedade contemporânea.
Convivência Ética: aprender a viver em sociedade
Em um contexto em que temas como bullying, intolerância, polarização e saúde emocional ocupam espaço cada vez maior no ambiente escolar, a Escola Internacional de Alphaville (EIA), em Barueri (SP), trata a convivência como um conteúdo que também precisa ser ensinado. Na disciplina de Convivência Ética, desenvolvido desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, os alunos são incentivados a construir relações respeitosas, lidar com conflitos de maneira construtiva e tomar decisões pautadas por princípios éticos e pelo respeito às diferenças.
Os estudantes participam de atividades, debates e reflexões adequadas a cada faixa etária, desenvolvendo competências socioemocionais como empatia, escuta ativa, cooperação, responsabilidade, autocontrole e resolução pacífica de conflitos. “A proposta também atua de forma preventiva no enfrentamento ao bullying e incentiva o protagonismo dos estudantes na construção de um ambiente escolar acolhedor e colaborativo”, afirma Bruna Beatriz Donnarumma, coordenadora pedagógica da EIA.
A disciplina está alinhada à filosofia educacional da escola, que tem na formação ética um de seus principais pilares. Segundo a docente, o desenvolvimento acadêmico precisa caminhar lado a lado com a construção do caráter, da consciência social e do bem-estar, preparando os estudantes não apenas para o ingresso na universidade, mas também para a convivência em uma sociedade cada vez mais diversa e conectada. “A cultura escolar deve valorizar a formação integral, tendo a convivência ética, a ciência do bem-estar e a autorrealização como elementos centrais de seu projeto pedagógico”, acrescenta Bruna.
Já o Colégio Bandeirantes integra à sua grade curricular, do 1º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, o programa de Convivência Positiva e Projeto de Vida (CPV), uma disciplina focada na formação humana integral, na mediação de conflitos e no desenvolvimento de competências socioemocionais e sociomorais. Alinhada à BNCC, a iniciativa aborda de forma continuada e estruturada temas vitais para o século XXI, como regulação emocional, comunicação assertiva e não violenta (CNV), letramento digital, análise crítica da mídia, diversidade, prevenção ao bullying, educação sexual integral e prevenção ao uso de drogas. A proposta curricular conta com material autoral e dinâmicas interativas que evoluem conforme a maturidade do estudante, culminando no desenvolvimento da capacidade de argumentação e no planejamento de carreira no Ensino Médio.
Para garantir a excelência e a profundidade das abordagens, as aulas são ministradas por professores capacitados em regime de formação continuada, contando ainda com a assessoria acadêmica de especialistas renomados de instituições como UNICAMP, UNESP e UNIFESP. A estrutura pedagógica expande-se para o cotidiano escolar por meio de frentes de liderança e responsabilidade social, como o comitê BandAntirracismo — grupo de transformação cultural para a equidade racial formado por pais, alunos e educadores —, posicionando o protagonismo estudantil, a ética e o bem-estar coletivo no centro da aprendizagem.
Digital Literacy: aprender a usar a tecnologia de forma crítica
Na Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), uma das disciplinas que integra o currículo é a Digital Literacy, que tem como objetivo ensinar os estudantes a utilizar ferramentas tecnológicas, além de desenvolver competências para compreender criticamente o ambiente digital, identificar desinformação, analisar fontes de informação e utilizar a tecnologia de maneira ética e responsável.
As aulas abordam temas como algoritmos, inteligência artificial, segurança digital, produção responsável de conteúdo, análise de notícias falsas, deepfakes e funcionamento das redes sociais. Em uma das iniciativas da escola, os próprios alunos desenvolveram uma rede social interna, utilizada como ambiente seguro para aprender sobre comunicação digital antes da interação real em plataformas abertas.
Segundo o professor Rodrigo Cunha, responsável pelas aulas, crescer cercado por tecnologia não significa estar preparado para utilizá-la de forma consciente. “O papel da escola é desenvolver pensamento crítico para que os estudantes consigam compreender como as informações circulam, identificar manipulações e fazer escolhas responsáveis no ambiente digital”, afirma.
Educação Financeira: cidadãos conscientes e preparados para o futuro
No Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo (SP), o programa de Educação Financeira é desenvolvido ao longo de todo o Ensino Fundamental, acompanhando os estudantes do 1º ao 9º ano. O objetivo é promover o desenvolvimento de habilidades práticas e comportamentais para a gestão responsável e inteligente das finanças, incentivando a construção de uma relação consciente com o dinheiro e o consumo baseada em cinco pilares: ganhar, gastar, poupar, investir e doar.
Desde o 1º ano do Ensino Fundamental, os alunos desenvolvem competências essenciais para a vida ao participar de experiências que integram Educação Financeira, consumo consciente, sustentabilidade e economia circular. Por meio de projetos práticos, como a Feira de Trocas, aprendem, de forma significativa, a refletir sobre suas escolhas, valorizar o reaproveitamento de recursos e compreender melhor temas como, por exemplo, hábitos de consumo, o que contribui para a formação de cidadãos mais conscientes, sustentáveis e preparados para os desafios do futuro.
No Ensino Fundamental II, o destaque é o projeto “PortoCoin”, realizado com as turmas de 6º e 7º anos. Ao longo do projeto, os estudantes exploram a função, o valor e a circulação do dinheiro ao criar uma moeda fictícia e participam de desafios que simulam decisões financeiras reais. Essa vivência prática fortalece o entendimento matemático e desenvolve habilidades como planejamento, organização e pensamento crítico, conectando o aprendizado à vida cotidiana.
Já no Ensino Médio, por meio do itinerário Escola de Negócios, os alunos participam do “Desafio de Investimentos”, realizado em parceria com a FGV EAESP. Com mentoria de especialistas, eles constroem uma carteira de investimentos e a apresentam para bancas com convidados do mercado financeiro, como a B3. Esse aprofundamento prático se reflete em conquistas expressivas, a exemplo das mais de 50 medalhas obtidas na Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira (OLITEF).
Como resume Luciana Gomes, diretora institucional do Ensino Fundamental I, aprender sobre finanças desde a primeira infância vai muito além de compreender conceitos relacionados ao dinheiro. “A Educação Financeira tem um papel primordial na formação de comportamentos, valores e atitudes que acompanharão os estudantes ao longo de toda a vida. Em uma sociedade marcada pelo estímulo ao consumo, direcionado às crianças cada vez mais cedo, é essencial desenvolver a capacidade de refletir, questionar e fazer escolhas conscientes e responsáveis”, afirma.
Projeto de Impacto Comunitário (PIC)
Na Rede Santa Catarina, os colégios contam com o Projeto de Impacto Comunitário (PIC) como parte da disciplina de Projeto de Vida, por meio da qual os alunos vivenciam, na prática, valores como solidariedade e responsabilidade social. Trata-se de uma iniciativa pedagógica que convida o estudante a identificar situações reais em seu território e a buscar soluções que unam educação, empatia e cidadania.
Diversas ações comunitárias protagonizadas pelo corpo estudantil resultam do PIC. Em 2025, alunos do Colégio Santa Catarina lançaram o livro “Memórias do Lar”, como desfecho de um ano de convivência e escuta ativa entre os jovens da 3ª série do Ensino Médio e os idosos atendidos pelo Lar Madre Regina. A proposta foi a preservação das histórias de vida de pessoas idosas, um gesto de respeito, cuidado e reconhecimento que dialoga com a missão da instituição.
Neste ano, o foco de um dos grupos é aprofundar o debate sobre a neurodivergência (TEA, TDAH, Dislexia, entre outras) e combater o capacitismo. Com o objetivo de fortalecer a inclusão, reduzir o isolamento social e apoiar a garantia de direitos fundamentais de pessoas neurodivergentes, os alunos devem lançar um Guia de Acessibilidade Cognitiva, além de promover workshops de sensibilização junto à comunidade.
College Counselling
Os colégios da Rede Santa Catarina contam ainda com o College Counselling, um programa de orientação acadêmica e profissional que acompanha os estudantes na construção de seus projetos de vida e na preparação para processos seletivos de universidades no Brasil e/ ou no exterior. Mais do que indicar instituições, o programa auxilia cada estudante a identificar seus interesses, talentos, objetivos profissionais e oportunidades acadêmicas, transformando esses elementos em um plano estruturado para o futuro.









