Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!
Início » Brasil tem primeiro diagnóstico participativo sobre cuidados em nível municipal, estudo inédito foi realizado em Belém (PA)

Brasil tem primeiro diagnóstico participativo sobre cuidados em nível municipal, estudo inédito foi realizado em Belém (PA)

Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!

O trabalho de cuidado, é uma das principais questões estruturais que o Brasil precisa enfrentar para avançar em igualdade de gênero e desenvolvimento social. É o que aponta o estudo inédito da ONU Mulheres e a Prefeitura Municipal de Belém (PA), realizado pela Tewá 225 — consultoria que traz soluções para os desafios socioambientais das empresas, organizações e governos — “Diagnóstico Participativo sobre a Organização Social do Cuidado em Belém (PA)” revela que, em média, as mulheres em Belém dedicam 11,7 horas diárias ao trabalho de cuidado, somando tanto atividades remuneradas quanto não remuneradas, que incluem o cuidado de crianças, idosos e pessoas com deficiência (PCDs).
 

Esse diagnóstico é o primeiro do tipo feito em nível municipal no país desenvolvido dentro do projeto Ver-O-Cuidado, iniciado em 2022, que é pioneiro no Brasil ao tratar dos impactos econômicos do cuidado em nível municipal,e muito antes da Política Nacional de Cuidados, promulgada em dezembro de 2024. O estudo avalia aspectos como: a falta de serviços públicos adequados e as consequências dessa sobrecarga, que afeta a saúde, o bem-estar e as oportunidades das mulheres paraenses.
 

“Mais do que discutir a economia do cuidado, o estudo busca tornar visível o que é, afinal, cuidado — quem cuida, de quem, em quais condições e a que custo. Esse mapeamento é essencial para compreendermos como o cuidado estrutura a vida em sociedade, mesmo sem o devido reconhecimento. Com a proximidade da COP30 em Belém, entender essa dinâmica nos territórios amazônicos — com suas particularidades de clima, infraestrutura, acesso à renda e à educação — é fundamental para enfrentar as desigualdades que recaem sobre as mulheres”, explica Fernanda Mallak, diretora técnica da Tewá 225 e coordenadora do estudo.
 

O objetivo do estudo é a identificação do trabalho de cuidado como uma economia invisível que sustenta, em grande parte, o funcionamento da sociedade. A pesquisa contou com 166 participantes, em que mais metade (48,8%) tem entre 30 e 44 anos, e maioria se identifica como negra (78,1%), somando pretas e pardas) um terço pertence a comunidades tradicionais — quilombolas, ribeirinhas e indígenas – e com renda entre 1 e 3 salários mínimos.
 

“Produzir informação e conhecimento sobre cuidados no contexto local permite que a tomada de decisões políticas sejam feitas de maneira orientada com a situação real do território. Nós nunca vamos conseguir atingir a igualdade na construção de uma política que valorize esse trabalho de cuidado se nós não escutarmos as diferenças que as mulheres passam pela sua raça, pela sua etnia, pelo seu território e todas as outras interseções que impactam a realidade dessas mulheres”, explica a gerente de projetos da ONU Mulheres, Virgínia Gontijo.

Dentre os resultados obtidos com o Diagnóstico Participativo sobre a Organização Social do Cuidado em Belém (PA), cerca de 58,9% das mulheres participantes do estudo conciliam múltiplas jornadas de trabalho, muitas vezes sendo as principais responsáveis pelo sustento de suas famílias, especialmente as mulheres negras e mães. Entre as respondentes, 68,5% assumem a responsabilidade pelo sustento familiar, com destaque para 69,8% das mulheres mães e 70,8% das mulheres negras. As jornadas diárias dessas mulheres variam entre 11,7 e 17,5 horas, evidenciando a sobrecarga a que são submetidas.

As cuidadoras não remuneradas, muitas dedicadas integralmente aos cuidados de crianças (58,4%), idosos (40,8%) e PCDs (37,5%), exercem um trabalho essencial, mas sem reconhecimento formal ou benefícios trabalhistas. A pesquisa revelou ainda que 80,6% das cuidadoras entrevistadas consideram insuficientes os serviços públicos de cuidado em Belém, com 82,9% avaliando a infraestrutura como inadequada e 76,7% considerando o atendimento insatisfatório. Além disso, 74,4% apontaram falta de acessibilidade, com destaque para a precariedade em áreas periféricas e nas ilhas, como Icoaraci, Terra Firme e Cabanagem.
 

Apesar dos desafios, 52,7% das mulheres entrevistadas possuem ensino superior completo, e 58,9% exercem atividades remuneradas, concentradas principalmente no setor público. Mais de um quarto das participantes recebem benefícios de programas assistenciais, com destaque para o Bolsa Família. Quanto à localização, 46,5% residem no Distrito Administrativo de Belém (DABEL) e 20,6% vivem nas ilhas do entorno. Além disso, 6,6% das mulheres combinam trabalho de cuidado remunerado e não remunerado, revelando a sobreposição de responsabilidades que caracteriza a realidade do cuidado na cidade.
 

O estudo combinou metodologias qualitativas e quantitativas, envolvendo oficinas presenciais com comitês gestores e municipais, entrevistas em grupo com servidoras públicas e cuidadoras, mapeamentos coletivos de território e uma pesquisa online (survey) que contou com 166 respondentes, mobilizados a partir das parcerias do projeto Ver-o-Cuidado, caracterizando uma pesquisa com um grau de confiança de 80%. Também foram realizadas entrevistas individuais com representantes de ministérios do Governo Federal e especialistas em políticas de cuidado.

“A metodologia adotada pela Tewá 225 foi cuidadosamente estruturada para garantir que as mulheres participantes pudessem expressar suas realidades. O diagnóstico participativo foi um processo de escuta ativa e construção colaborativa do conhecimento, essencial para capturar a complexidade das jornadas que os diferentes perfis de cuidadoras enfrentam e a falta de reconhecimento por parte das políticas públicas”, explica Fernanda Mallak.
 

Saberes tradicionais, crise climática e o cuidado como eixo estratégico na Amazônia

O diagnóstico destaca a relevância dos saberes tradicionais no cuidado, especialmente entre mulheres de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas. Essas práticas culturais e espirituais ampliam a compreensão do cuidado, que vai além das abordagens técnicas e institucionais, estabelecendo redes de solidariedade e apoio mútuo. A conexão entre o cuidado e a proteção territorial reflete como essas mulheres se organizam, muitas vezes diante da escassez de serviços públicos e das desigualdades regionais, oferecendo soluções adaptativas e comunitárias.
 

“A crise ambiental tem um impacto direto e crescente na dinâmica do cuidado. Com a intensificação de eventos climáticos extremos, como enchentes e secas, a pressão sobre as mulheres aumenta, já que elas continuam sendo as principais responsáveis pelos cuidados familiares. Além disso, a pandemia da COVID-19 exacerbou essa situação, com o aumento da demanda por cuidados e a interrupção de serviços essenciais, o que tornou ainda mais evidente o impacto das mudanças climáticas na vida das mulheres dessas regiões”, aponta Fernanda.
 

Diante desse cenário, o futuro do cuidado na cidade passa pela criação de um piloto de uma Política Municipal de Cuidados, que reconheça e integre os saberes tradicionais das comunidades locais, melhorando o atendimento em áreas vulneráveis. A COP 30, que acontecerá em Belém, representa uma oportunidade histórica para colocar o cuidado no centro dos debates sobre justiça climática e sustentabilidade, abordando a conexão entre preservação ambiental e qualidade de vida das mulheres cuidadoras.
 

O Diagnóstico Participativo sobre a Organização Social do Cuidado em Belém (PA) está disponível para download aqui.
 

VER-O-CUIDADO

Desenvolvido entre 2022 e 2025, o projeto Ver-O-Cuidado, iniciativa da ONU Mulheres Brasil, em parceria com Prefeitura Municipal de Belém e financiamento da Open Society Foundations, contou com a participação ativa da gestão municipal e de organizações da sociedade civil, resultando em uma série de produtos de conhecimento que servirão de base para outros municípios que desejem implementar políticas públicas de cuidado.

O principal objetivo do projeto é criar um piloto para um Sistema Municipal de Cuidados em Belém, atuando em duas frentes: Fortalecimento das capacidades do governo e instituições públicas para desenvolver, implementar e monitorar estratégias de cuidado e um sistema piloto; Apoio às trabalhadoras do cuidado, remuneradas ou não, para que possam participar dos processos decisórios, acessar trabalho decente e fortalecer sua autonomia econômica.

Descubra quanto de Mata Atlântica existe em você!
PARTICIPE DO REDE AGORASP
PARTICIPE DO REDE AGORASP
Recebendo notícias, participando, enviando conteúdos com fotos e vídeos.